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Seguro pode negar cobertura por problema mecânico pré-existente?

Motorista preocupado ao lado de carro parado em SP, representando a dúvida sobre negativa de seguro e vício pré-existente.

Imagine a seguinte situação: você trafega por uma das movimentadas avenidas de São Paulo quando, subitamente, o veículo apresenta uma falha grave no motor ou na transmissão. Após acionar o guincho e encaminhar o automóvel para a oficina vinculada à seguradora, você recebe uma notícia frustrante: a cobertura foi negada sob o argumento de que o problema mecânico era pré-existente à contratação da apólice.

Este cenário é mais comum do que se imagina e gera um sentimento de desamparo no consumidor, que paga as parcelas do seguro em dia justamente para ter tranquilidade em momentos de crise. Mas será que essa negativa é sempre legítima? O ordenamento jurídico brasileiro possui regras claras para equilibrar essa relação e evitar abusos.

Neste artigo, vamos analisar como a lei e os tribunais interpretam a negativa de cobertura por vícios mecânicos anteriores e o que você, enquanto segurado, pode fazer para proteger seus direitos.

O que configura um problema mecânico pré-existente?

No universo dos seguros, o risco é o objeto do contrato. A seguradora assume o risco de um evento futuro e incerto (o sinistro) mediante o pagamento de um prêmio. Quando falamos em problema pré-existente, referimo-nos a um dano ou desgaste que já estava presente no veículo antes da assinatura do contrato ou da renovação da apólice.

Juridicamente, precisamos distinguir duas situações:

  1. Vício aparente: aquele que pode ser percebido facilmente em uma análise simples ou vistoria.

  2. Vício oculto: aquele que não é detectável à primeira vista e que só se manifesta com o uso ou após uma inspeção mecânica profunda.

A grande controvérsia surge quando a seguradora alega que o segurado omitiu a existência de um defeito para obter a cobertura. No entanto, a boa-fé é presumida no Direito Civil brasileiro. Ou seja, cabe à empresa provar que o consumidor agiu com má-fé ou que o defeito era de tal ordem que o proprietário não poderia desconhecer.

A importância da Vistoria Prévia

Antes de aceitar um risco, as seguradoras que operam em São Paulo e região costumam realizar a chamada vistoria prévia. Esse procedimento serve exatamente para que a empresa verifique o estado de conservação do bem que está segurando.

Se a seguradora realizou a vistoria e aceitou o veículo sem ressalvas, ela emitiu um atestado de que o automóvel estava em condições de ser segurado. Negar a cobertura posteriormente, alegando um problema que poderia ter sido detectado naquele momento, fere o princípio da confiança.

Caso a empresa tenha dispensado a vistoria no ato da contratação, ela assumiu o risco de segurar o veículo no estado em que ele se encontrava. Em ambos os casos, a negativa posterior baseada em problemas mecânicos antigos torna-se juridicamente frágil, salvo se houver prova cabal de fraude por parte do segurado.

O Código de Defesa do Consumidor e a Súmula 609 do STJ

O contrato de seguro é uma relação de consumo típica. Portanto, o segurado é protegido pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), que estabelece a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a possibilidade de inversão do ônus da prova. Isso significa que, em muitos casos, é a seguradora quem deve provar que o problema era pré-existente e de conhecimento do dono do carro.

Além do CDC, um pilar fundamental para quem enfrenta esse problema é a Súmula 609 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Embora seu texto mencione originalmente seguros de vida, o entendimento tem sido amplamente aplicado por analogia aos seguros de danos (como o de automóveis). A lógica é a seguinte:

“A recusa de cobertura securitária, sob a alegação de doença [ou vício] pré-existente, é ilícita se não houve a exigência de exames médicos [ou vistorias técnicas] prévios à contratação ou a demonstração de má-fé do segurado.”

Em termos simples: se a empresa não investigou a fundo antes de vender o seguro e não consegue provar que você mentiu deliberadamente, a negativa de cobertura pode ser considerada abusiva.

Situações em que a negativa pode ser contestada

Existem diversos exemplos práticos que levam os segurados a buscar orientação jurídica no estado de São Paulo para reverter negativas de sinistro:

Em todos esses casos, o cerne da questão é se o segurado tinha ciência inequívoca do problema e se a seguradora agiu com a diligência necessária no momento da contratação.

O que fazer ao receber uma negativa de cobertura?

Se você se encontra nesta situação, o primeiro passo é manter a calma e organizar a documentação. Medidas administrativas podem ser tentadas antes de qualquer via judicial:

  1. Exija a negativa por escrito: É direito do consumidor saber exatamente os fundamentos técnicos e contratuais que levaram à recusa. Peça o laudo técnico da perícia realizada pela seguradora.

  2. Reúna comprovantes de manutenção: Notas fiscais de revisões, trocas de óleo e serviços mecânicos realizados anteriormente são provas fundamentais de que o veículo era bem cuidado e que você não tinha conhecimento de vícios ocultos.

  3. Conteste administrativamente: Utilize os canais de ouvidoria da seguradora. Muitas vezes, um pedido de reanálise bem fundamentado pode reverter a decisão inicial.

  4. Reclamação na SUSEP: A Superintendência de Seguros Privados é o órgão que fiscaliza as seguradoras. Registrar uma queixa pode ajudar a pressionar a empresa por uma solução justa.

Caso essas etapas não surtam efeito, torna-se necessário avaliar o caso sob a ótica jurídica individualizada, verificando as cláusulas da apólice e a conduta da empresa no caso concreto.

Mini-FAQ: Dúvidas frequentes sobre Seguro e Problemas Pré-existentes

1. A seguradora pode negar o seguro se eu não sabia que o carro tinha um defeito?

Em regra, não. Para que a negativa seja válida, a seguradora precisa provar a sua má-fé. Se você desconhecia o vício oculto, a boa-fé é presumida e a cobertura deve ser mantida, especialmente se a empresa aceitou segurar o bem após vistoria (ou se abriu mão dela).

2. O que acontece se a seguradora não fez vistoria no meu carro?

Se a empresa dispensou a vistoria prévia, ela aceitou o risco de segurar o veículo no estado em que ele estava. Segundo o entendimento dos tribunais, ela não pode alegar defeitos pré-existentes posteriormente para se eximir do pagamento da indenização, salvo se houver prova de fraude.

3. Existe um prazo para a seguradora analisar o sinistro e dar a resposta?

Sim. Geralmente, o prazo estabelecido pela SUSEP é de até 30 dias para a liquidação do sinistro, contados a partir da entrega de toda a documentação exigida. Caso a empresa solicite novos documentos (o que suspende o prazo), ela deve justificar a dúvida fundada.

4. Posso entrar na justiça mesmo se eu já tiver feito uma reclamação na SUSEP?

Sim. As esferas administrativa e judicial são independentes. Você não precisa esperar uma resposta da SUSEP ou de qualquer outro órgão para buscar a proteção de seus direitos no Poder Judiciário.

Conclusão e Orientações Finais

O contrato de seguro deve ser pautado pela transparência e pelo equilíbrio. A alegação de “problema mecânico pré-existente” não pode ser utilizada pelas companhias como um “coringa” para evitar o cumprimento de suas obrigações contratuais, especialmente em uma metrópole como São Paulo, onde o uso do veículo é essencial para o cotidiano.

Se a sua cobertura foi negada, lembre-se de que a interpretação da lei tende a proteger o consumidor contra cláusulas e práticas abusivas. No entanto, cada contrato de seguro possui particularidades e cada falha mecânica exige uma análise técnica específica.

Por essa razão, caso a via administrativa não resolva o impasse, é recomendável buscar uma análise técnica e jurídica individualizada do seu caso. Somente um profissional qualificado poderá examinar sua apólice, o laudo da negativa e as provas de manutenção para traçar a melhor estratégia de defesa dos seus direitos.

Se você está enfrentando dificuldades com a sua seguradora e recebeu uma negativa de cobertura, entre em contato para uma avaliação ética e profissional da sua situação. Estamos à disposição para ajudar a esclarecer seus direitos e avaliar os caminhos legais disponíveis em São Paulo e região.

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